THE SOUND OF PUTARIA
O curta é uma viagem no tempo que atravessa a história das tecnologias da imagem — da televisão à inteligência artificial — para explorar o gênero putaria na música brasileira como uma estética do desejo, do humor e da performance da masculinidade. A história começa em 2008, período em que comecei a gravar meus primeiros vídeos. Eu estou navegando na internet e trocando mensagens num site de relacionamentos quando meu computador é invadido por uma entidade cibernética que diz: o futuro é agora. A partir desse momento, o computador deixa de ser uma máquina e torna-se uma porta para o ciberespaço, espaço-tempo onde memória, fantasia e desejo passam a coexistir. Surge então uma tela de televisão, a primeira grande janela eletrônica para o mundo. É por ela que o videoclipe se torna linguagem e transforma a música em imagem. Guiado pelos primeiros sinais dessa tela, atravesso o limiar do ciberespaço, meu espaço-tempo de atuação. O tempo acelera e o meu corpo jovem envelhece na tela. Não é apenas uma passagem de anos, mas a materialização de um futuro possível. Meu corpo envelhecido segue, na tela, produzindo desejos em um fim de tarde numa praia paradizíaca. Anoitece. Estou numa floresta. Meu corpo humano já não dá conta de expressar o desejo. Sou um animal, uma presa na floresta. Sou caça e caçador. O desejo deixa de ser humano para assumir formas primitivas, mitológicas e imaginárias. Da floresta, somos transportados para uma antiga casa de banhos grega onde o deus Baco habita e convive com homens viris. Narrativas da ficção da masculinidade... Sentado na frente do computador, eu acho graça de tudo aquilo. Então, chegamos em 2026. O Rio já não é mais o Rio de Janeiro. A cidade é aquilo que eu imagino, é aquilo que eu queria que ela fosse. Meu corpo já não é mais físico, mas uma projeção do passado. Expandido pelos recursos da inteligência artificial, torna-se um cibercorpo que habita a cidade dos meus sonhos. E nesse lugar, tudo pode acontecer, pois a vida é um carnaval. Entre arquivos do passado e tecnologias do presente, a autoficção transforma minha memória em fantasia. As músicas acompanham cada etapa dessa travessia, transformando a narrativa em uma experiência audiovisual onde som e imagem evoluem juntos. No fim, descubro que o futuro nunca foi um destino, mas uma ficção construída pela tecnologia, pelo desejo e pelas imagens que inventamos para habitar o mundo.
